Quando eu era criança, minha avó tinha uma roça. Na verdade, ela ainda tem, mas já não existe com a vida que existia nos meus tempos de infância. Foram incontáveis dias desde que formei minhas primeiras memórias até o dia da minha partida. Caminhava cerca de dois quilômetros para chegar à pequena roça e cuidar da criação.
Lembro do trajeto, das pessoas, do sol e dos pés acinzentados pela poeira do semiárido.
Retornei quatro anos depois da minha partida e já não me sentia parte daquele lugar. Não porque rejeitasse minha origem, mas porque a cidade e a roça de que me lembrava existiam apenas na minha memória. A cada retorno, encontro uma cidade um pouco diferente. Aos poucos, aquilo que me formou vai se esvaindo.
Por isso busco, através da imagem, congelar pequenos fragmentos do lugar que ainda persiste. Não apenas o meu, mas também o de tantos outros que carregam esses sertões na memória.